Panorama

Apresentação do Projeto

Para a Instituição de um Observatório de Acompanhamento e Análise da Mídia Comunitária dos Grupos Étnicos e Confessionais Recém-Estabelecidos no Brasil

O presente texto é uma síntese do projeto de pesquisa no qual se baseia o nosso site. Nele se encontram tanto os fundamentos teóricos que guiam o nosso trabalho como a estrutura metodológica que delimita nosso campo de ação e sinaliza os objetivos de nossas investigações.

O significado sóciopolítico da etnicidade
A realidade sociopolítica contemporânea é marcada pela flagrante inequação entre os planos nacional-estatal e cultural-identitário. Os fluxos e refluxos migratórios devidos aos processos de colonização e descolonização, assim como à explosão de setores econômicos e industriais usuários de mão de obra numerosa e/ou de competências específicas, deixaram rastros definitivos na topografia social da maior parte do planeta. A utópica homogeneidade cultural, confessional, étnica ou lingüística, que sustentava os ideais nacionais e nacionalistas herdados da alta modernidade, não passa mais de um referencial abstrato relegado aos manuais da História positivista.

Inúmeros estudos demonstraram, ao longo do século, que a questão étnico-cultural é central para qualquer esforço de compreensão das transformações sociais em curso. Apesar de todas as estratégias de sistematização da experiência humana e de seu enquadramento no projeto jacobino, de neutralização dos anseios de singularidade e de diferença, as manifestações identitárias acabaram se impondo como pólo aglutinador das subjetividades e base de organização comunitária de segmentos importantes da sociedade(0).

O desejo de diferenciação das comunidades humanas é inerente a seus próprios processos de auto-organização e de afirmação enquanto entidades coesas e coerentes. Ao se estruturarem em torno de seus sistemas comuns de classificação e de representação do real, os grupos sociais visam a instituição e a perpetuação de uma marca distinta capaz de consolidar seus interesses materiais e/ou ideológicos.

No afã de assegurar sua continuidade e se impor enquanto diferença diante outras formas sociais, a comunidade é obrigada a definir seu projeta existencial e delimitar seus campos e níveis de operacionalidade. Neste sentido, o marco identitário tem um conteúdo reflexivo e uma dimensão comunicativa que ordenam seu posicionamento e sua hierarquia no quadro geral da sociedade.

De fato, uma das características da sociedade moderna é a sua complexa composição por categorias “sociais distinguíveis com continuidade histórica”, sejam elas classes sociais ou grupos de afinidades, e a coexistência, “harmoniosa ou não”, de uma pluralidade de tradições cujas motivações podem ser ocupacionais, étnicas, religiosas ou outras(1). Por outro lado, apesar de sua ação desterritorializante e uniformizante, esse modelo organizacional estimula, dialeticamente, a formulação de quadros comunitários não-instrumentais propícios à afirmação da singularidade e à resistência às tentativas de sua homogeneização.

É verdade que o contexto moderno favorece, em primeiro lugar, as articulações a caráter vocacional, reduzindo os quadros identitários a sua função opcional, cujo objetivo não é a expressão efetiva de subjetividades singulares, mas apenas o aproveitamento da possibilidade de construção de uma narrativa que sustente os interesses e os ideais do sujeito(2). As instâncias de enunciação da cultura do grupo, enquanto marcas diferenciadas, passam, assim, a se expressar sob novas formas e via novos canais, de tal maneira que possam conciliar a preocupação identitária com outras articulações a caráter vocacional ou profissional.

Porém, por sua capacidade de se organizarem paralelamente e até em função das determinações do mercado, essas instâncias têm o privilégio de constituir uma manifestação viva do desejo visceral de ser e de se afirmar enquanto marca diferenciada num mundo que funciona no princípio da uniformização e categorização das populações, reduzidas a estatísticas e projeções de necessidades e hábitos de consumo.

A identidade étnico-cultural (que pode incluir elementos nacionais, lingüísticos e/ou religiosos), em especial, se revelou um poderoso catalisador ideológico, capaz de secretar complexos mecanismos de estruturação da vida social sob todas as suas formas. Funciona, notadamente, como molde (parcial ou predominante) dos quadros simbólicos que estabelecem os critérios de reconhecimento e as regras de conduta dentro do próprio grupo e nas relações com o resto da sociedade(3).

Todavia, essa multiplicidade dos quadros identitários que, com certeza, é uma preciosa fonte de riqueza simbólica, pode também ser portadora de conflitos latentes e incompatibilidades potenciais em termos de lealdade e de reconhecimento, tanto ao nível abstrato dos valores culturais e civilizacionais como no plano concreto de atitudes e comportamentos sociais e políticos(4).

A dimensão geocultural da globalização

Com o processo de globalização, a questão da múltipla lealdade e da incompatibilidade de valores está chegando ao paroxismo de sua exacerbação. Se o distanciamento geográfico e a relativa lentidão das comunicações da época pré-global ainda permitiam uma re-elaboração mais aprofundada da identidade minoritária no ambiente local, hoje, à medida que se configure uma nova esfera étnico-cultural transnacional (”ethnoscape” na expressão de Arjun Appadurai (1991)), se torna mais problemática a desvinculação do universo simbólico de origem ou o afastamento das comunidades “irmãs”.

Para uma apreensão construtiva das mudanças em curso, primeiro há de salientar a natureza info-temporal e tecno-organizacional do processo de globalização. Já que a particularidade da época contemporânea reside na rearticulação das relações sociais e de produção em torno das Novas Tecnologias de Comunicação. A especificidade dessas tecnologias, por sua vez, consiste no deslocamento das instâncias de mediação política, econômica e social da dimensão espacial para a temporal, e a instituição do princípio de instantaneidade e de imediatez como base de regulação de nossa experiência significativa.

É conhecida a proposta de David Harvey (1993) de uma equação que possibilite o cálculo do grau de “encolhimento” do planeta em função da velocidade tecnicamente possível para cobri-lo. O que significa que as distâncias “vividas” entre diferentes pontos do espaço físico são inversamente proporcionais ao tempo necessário para atravessá-las, tornando, assim, virtualmente possível a utopia do mundo como “um lugar só”, já que o próprio das NTCs é, justamente, a instantaneidade.

O conceito de globalização, portanto, não deve ser entendido em relação ao globo terrestre, mas sim no sentido da globalidade de uma ação ou de um processo, ou seja, a sua realização ou a sua vivência simultânea em múltiplos pontos do espaço. É essa equação que possibilita o surgimento efetivo e concreto das culturas e identidades transnacionais, fundadas numa origem comum (muitas vezes mítica), mas independentes dos quadros organizacionais estatais e territoriais tradicionais.

A teoria da globalização, através de seus principais formuladores, não deixou de chamar a atenção sobre a correlação dialética ou até paradoxal existente entre o processo de globalização e a tendência generalizada de reterritorialização e de renraizamentos locais, particulares e transnacionais (Robertson, 1992; Feathersone, 1990). A mesma teoria é, com certeza, bastante prolixa quanto ao “iminente” esvaziamento das funções reguladoras do Estado-Nação, sua “extinção” anunciada, o ressurgimento de antigos e arcaicos tribalismos e a formação de novas bacias de subjetividades emancipadas do controle espacial e da gestão territorial.

Globalismo versus localismos, particularismos ou transnacionalismos são as duas faces de um mesmo fenômeno, como se pode observar na maior parte do planeta; onde o processo vem provocando reações abruptas e muitas vezes violentas por parte das culturas e das identidades singulares ou minoritárias ameaçadas pelo trator nivelador do mercado mundial e do molde existencial único. Reações que vão dos mais cruéis e sangrentos enfrentamentos até as mais diversas revoluções moleculares e estratégias micropolíticas de reterritorialização, reformulação e re-apropriação de territórios existenciais e espaços públicos ou comunitários(5).

Assim, vemos hoje florescer em todo o mundo, o desejo de elaboração de novas instâncias de produção da subjetividade e de enunciação das singularidades. Os métodos variam e se diversificam, mas o objetivo é o mesmo: resistir à força devassadora do “todo lugar” que de tanto usar de “lugares comuns” se revela nada mais do que “lugar nenhum”. Terra de ninguém onde a confusão só pode gerar a não-fusão, onde a identidade não passa de paralelismos distorcidos pela lente da “onivisão”, por falta de ângulo e de perspectiva particulares.

A tensão entre a vontade de enraizamento própria aos particularismos culturais e a força centrípeta do universalismo mercantil constitui hoje, decerto, uma das principais linhas de ruptura tanto nas teorias sociais como nos próprios projetos existenciais de toda organização social. Por isso, neste contexto de ambivalência teórica causada pela superexposição das idéias, se faz necessária e urgente uma reflexão atenta às lógicas de relocalização, sensível às linhas de tensão entre o singular e o universal / o minoritário e o hegemônico, capaz de discernir o “todo lugar” do “lugar nenhum”.

De fato, ao mesmo tempo que assistimos à interconexão das diferentes partes do planeta no já real “sistema-mundo” e à transnacionalização de certos aspectos das culturas locais, se faz cada vez mais insistente a inconformidade com as fórmulas identitárias clássicas, buscando e propondo novos modos e novas modalidades de reenraizamento na diferença de seus respectivos “aqui e agora”. Assim, neste contexto de crises e rupturas, as identidades étnicas e culturais se tornam o verdadeiro motor da História, abrindo o caminho para a nova configuração política mundial de ordem, não mais ideológica no sentido tradicional, mas sim geocultural (Wallerstein, 1991; Huntigton, 1994; Kotkin, 1993).

A questão da etnicidade no Brasil

“Ao nos aproximarmos da virada do milênio, o Brasil permanece sendo um país onde a etnicidade hifenizada é predominante, embora não reconhecida”
Lesser, Jeffrey (2001: 20)

No caso brasileiro, a questão étnica adquire contornos especialmente delicados, ambíguos e até paradoxais. De fato, ao mesmo tempo que a ideologia oficial de formação nacional peca por seu excessivo simplismo e linearidade reducionista, os atores implicados no processo de negociação da idéia de brasilidade, souberam usar de todas as estratégias discursivas possíveis para nuançar e “complexificar” os conceitos de identificação, pertencimento, lealdade e reconhecimento.

A configuração étnico-cultural brasileira atual é, decerto, bastante distante dos ideais eurocêntricos que moveram a construção da identidade nacional. O capítulo da História social e política da formação do país registra com fascínio a defasagem sistemática entre o discurso oficial e hegemônico e a química social responsável pelas trocas simbólicas espontâneas e imediatas(6).

Enquanto se pregava os ideais da cordialidade e da “democracia racial”, os preconceitos raciais, culturais e religiosos vigoravam de modo malicioso e perverso. Por outro lado, apesar de todas as tentativas de embranquecimento e europeização da população, de ordem tanto política como religiosa ou pseudocientífica, ninguém pode negar que a paisagem étnica (”ethnoscape”) no Brasil hoje é uma das mais diversificadas do mundo; um verdadeiro patchwork étnico-cultural.

São centenas de comunidades espalhadas pelo Brasil, compostas por dezenas de origens culturais, étnicas e confessionais diferentes. Uma população que, ao mesmo tempo que cumpre seus papeis e deveres de cidadãos brasileiros, não deixa de cultivar e cultuar suas raízes pré-migratórias. Os Brasileiros “de curta data” (Sodré, M. 1999), da 2a., 3a. e até 4a. gerações, constituem hoje, um verdadeiro laboratório vivo das possibilidades de identidade hifenizada, combinando das várias maneiras possíveis cidadania plena e lealdade múltipla(7).

Trata-se de um modo singular de produção de subjetividade, de construção do imaginário coletivo e de organização das instâncias de enunciação da identidade do grupo. Os quadros simbólicos de referência próprios a esse tipo de etnicidade des/re-territorializada abrangem espaços afetivos, rituais e políticos difíceis de delimitar. E a relação entre o local, o global e o original (real ou mítico), neste contexto, se dá em termos bastante complexos, que podem ser tanto (ao mesmo tempo) confluentes como conflituosos.

Ora, a idéia geral superficial que se tem da etnicidade e das identidades hifenizadas, no Brasil, continua bastante binária, regida pelo discurso tradicional de cordialidade e de “democracia racial”. Pouco se sabe da visão complexa que esses grupos têm deles mesmos, de seus respectivos países e culturas de origem, do Brasil e do mundo global no qual eles se inscrevem.

Há, tanto por parte da mídia como da opinião pública, uma apreensão excessivamente romântica e exótica da relação desses grupos com o Brasil. O que só pode se explicar por um desejo inconsciente do próprio brasileiro se convencer que ele vive no melhor dos mundos possíveis ou uma tentativa tácita de exigir lealdade absoluta por parte dos imigrantes e de seus descendentes. É fácil constatar que existe uma certa dificuldade em conceber e admitir o direito do bi- ou trans-nacional à dúvida, à dualidade e à ambivalência; ou seja, o direito a uma atitude determinada historicamente.

Mídia comunitária e estruturas discursivas do grupo

A nossa proposta de acompanhar e analisar a mídia desses grupos vai, justamente, no sentido de uma tentativa de restituição de seus mapas políticos e cognitivos, do modo mais fiel possível. Tendo a mídia comunitária (étnico-confessional no caso que nos interessa), de fato, esse mérito de oferecer um discurso reflexivo, organizado, aberto e público sobre o próprio grupo, sobre os Outros e sobre o mundo.

Ao limitar nosso campo de pesquisa à mídia “institucionalizada”, não queremos ignorar os níveis mais sutis das práticas sociais ou desqualificar as dinâmicas discursivas subjacentes às diversas instâncias de produção de sentido das organizações comunitárias. Mas, cremos que, no atual espaço democrático, o discurso público investido da autoridade representativa, estabelecida e reconhecida pelos próprios membros do grupo, deve ser particularmente valorizado. Já que, é por meio desse mesmo discurso que os grupos minoritários (étnicos e confessionais) elaboram as suas estratégias de legitimação e formação de consenso, tanto entre o seu público interno como junto à sociedade.

Se, como sabemos, toda organização social é estruturada, primeiramente e antes de nada, no plano discursivo, a importância dos discursos politicamente fundamentados e socialmente coerentes não se limita à sua capacidade de representação do real, mas sim de sua eficácia em produzir sentido e estabelecer o consenso necessário para a sobrevivência do grupo; o que os obriga a adotar práticas bastante transparentes e lhes outorga um grau seguro de credibilidade(8).

Obviamente, tais discursos, essenciais no processo de produção e reprodução do sentido, não são formas inocentes ou inconscientes de uso da linguagem, mas sim construções ideológicas reflexivas que objetivam provocar um impacto na cognição social de seus receptores. Eles desempenham, assim, um papel intencional crucial na validação, expressão e legitimação de seu universo social ou cultural. Não é por acaso que os grupos étnico-confessionais, tanto no Brasil como no resto do mundo, geralmente são dotadas de uma eficiente mídia comunitária que assegura a sua coesão social, cultural e política aos níveis local, regional, nacional e global.

Os grupos étnicos e culturais sentem o imperativo de se manifestar sobre a realidade social e política no qual eles se inserem para se posicionarem com relação à sociedade e oferecer a seus membros um quadro coerente de ação. De fato, há uma dependência estreita entre as formas organizacionais de uma comunidade e as suas instâncias de enunciação de seu projeto sócio-histórico, na medida que, ao elaborarem as suas práticas discursivas, procuram desenvolver estratégias que atuem como dispositivos simbólicos na disputa pela imposição do sentido.

Comunicação, cultura e conflitos

Mesmo se, ao contrário de países atentos ao potencial da imigração, aqui no Brasil, não dispomos de dados quantitativos significativos relativos ao retorno econômico, político e social dos componentes étnicos da nação, não há dúvida sobre o fator potencializador de riquezas inerente à multiplicação dos quadros simbólicos e organizacionais de referência desses grupos. Porém, a falta desse tipo de estudo é sintomática quanto à inexistência generalizada de políticas étnicas ou culturais no país. Sendo que por política, não se entende aqui um poder coercivo ou uma competência gestionária, mas sim a capacidade reflexiva de auto-reconhecimento e autoprojeção.

Todavia, paralela e simultaneamente, não se pode ignorar que, em função do contexto sóciopolítico geral (nacional e/ou internacional), essa multiplicidade de quadros simbólicos de referência e de lealdade constitui uma matriz fértil para potenciais atritos e conflitos de várias naturezas. Não se trata de brandir o espectro de um hipotético “fracasso do projeto cultural-identitário nacional”, já que a cultura e a identidade de um povo ou uma nação são o reflexo da dinâmica histórica que os subtende e não um modelo a ser imposto. Nem acreditamos na possibilidade de existência de uma suposta Identidade única e (no) singular em algum lugar do mundo. Tampouco pretendemos questionar os inúmeros benefícios culturais e humanos da diversidade e da diferença.

Contudo, a nossa proposta é de não ignorar o caráter político e estratégico da etnicidade a seus níveis regional, nacional e global(9). Acreditamos na necessidade imperativa de organizar uma estrutura acadêmico-institucional que seja apta a medir constantemente os movimentos e oscilações nos quadros simbólicos de identificação dos grupos étnicos e confessionais recém-estabelecidos no Brasil, tais como são refletidos por sua mídia comunitária. Trata-se de realizar uma radiografia geral desses mesmos quadros e de detalhar seus contornos em função de especificidades inerentes a um grupo dado ou à luz de eventos extraordinários internos ou externos.

Existe hoje, tanto na Europa como na América do Norte, uma linha de estudos chamada “Cultura e Conflitos”, voltada para as formas atuais de “conflituosidade”. Seu defeito a nosso ver, todavia, é de reservar à questão da comunicação (meios, sistemas e processos) um lugar apenas periférico. Ora, acreditamos que se a especificidade da contemporaneidade é a “reorganização das relações sociais e de produção em torno dos meios de produção, difusão e controle da informação”, não há como não colocar a comunicação no centro da problemática.

Nossa proposta ampla, portanto, é de iniciar uma reflexão teórica-empírica concentrada nos conflitos sociais a caráter cultural a partir de uma perspectiva comunicacional, e tendo como pano de fundo as transformações políticas e organizacionais frutos da modernidade tardia. Nesse quadro teórico que chamamos de “Comunicação, Cultura e Conflitos”, pretendemos incluir estudos atentos aos aspectos culturais de determinados conflitos sociais ou políticos e realizar modelos analíticos que possam mapear tais situações e até prever seus desdobramentos possíveis.

Acreditamos que um delineamento mais detalhado dessa configuração teórica (”Comunicação, Cultura e Conflitos”) pode nos fornecer preciosos subsídios epistemológicos para fundamentar nosso projeto de mapeamento dos discursos identitários, políticos e organizacionais das populações brasileiras de “curta data”.

Cartografia da mídia étnico-confessional no Brasil

O objetivo final de nossa pesquisa é a instalação, a médio prazo, de um observatório nacional de acompanhamento e análise da mídia comunitária dos grupos étnicos e confessionais recém-estabelecidos no Brasil. Porém, antes de nos empenhar a edificar a estrutura permanente deste projeto, cuja função seria a normatização da análise e a sistematização das regras de sua aplicabilidade, pretendemos, num primeiro tempo, concentrar a nossa pesquisa nos grupos considerados mais “nevrálgicos” e limitar a sua área de atuação às regiões mais populosas e onde a presença da imigração de curta data é mais marcante (Sul e sudeste).

Com efeito, o objetivo específico de nossa pesquisa pode ser resumido nos seguintes pontos:

Levantamento dos grupos étnico-nacionais ou religiosos que se caracterizam pela imigração recente, a nacionalidade brasileira de curta data e a múltipla lealdade política, e não apenas pela pluri-identificação cultural transnacional (portanto não incluindo os segmentos raciais e sectários endógenos, ainda que minoritários como os Negros, Evangélicos ou seguidores das diversas seitas religiosas existentes no Brasil)

Um levantamento preliminar sugere que são dezenas de grupos espalhados pelo Brasil afora que podem se enquadrar nesses critérios: Muçulmanos, Árabes, Judeus, Curdos, Armênios, Ucranianos, Indianos de várias etnias, Bósnios, Croatas, Sérvios, Afegãos, Paquistaneses, Chineses de várias regiões, Africanos de vários países e várias etnias, Bascos, Galicianos, Cipriotas, etc.. A lista é particularmente extensa, refletindo perfeitamente a realidade étnico-sóciopolítica típica ao contexto global no qual vivemos.

Para viabilizar a efetivação de nossa pesquisa e reforçar nosso interesse empírico-teórico relativo à linha “Comunicação, Cultura e Conflitos”, pretendemos confrontar ou superpor o mapa étnico-confessional brasileiro de curta data ao mapa mundial das crises e conflitos de caráter étnico, religioso ou regional. A partir desse duplo mapeamento, pretendemos estabelecer um quadro cultural, político, étnico e religioso dos grupos nevrálgicos presentes no Brasil.

Num terceiro momento, objetivamos selecionar apenas os grupos organizados em torno de sua fé, sua etnia ou sua identidade nacional de origem e dotados de uma mídia comunitária. Já que a análise que sugerimos propõe um estudo específico da mídia comunitária desses grupos.

Enfim, propomos uma análise mais detalhada do discurso construído por essa mídia em torno de fatos e eventos extraordinários (o 11 de setembro por exemplo) ou datas de significado político ou cultural relevante (eleições no Brasil e nas regiões de origem, datas religiosas ou nacionais particulares).

Não há dúvida que esse recorte metodológico deve nos possibilitar uma melhor percepção do alcance político e identitário do discurso desses grupos. O que, reciprocamente, deve apoiar nossa tentativa de re-leitura dos princípios de brasilidade, lealdade e reconhecimento à luz da configuração teórica relativa aos novos sentidos da “conflituosidade cultural” proposta por nós.

Da utilidade do observatório

A idéia de um observatório parte do princípio ético da necessidade de transparência de toda organização social ou política e do “direito de olhar” da sociedade civil sobre tudo que é de natureza pública. Em segundo lugar, como se viu no episódio do 11 de setembro, uma estrutura científica só pode evitar os mal-entendidos, as amalgamações de má fé ou de desinformação constrangedora e os usos “ideologizados” de idéias relativas à etnicidade, à religião e à trans-nacionalidade.

Ora, essa responsabilidade só pode ser da instituição universitária enquanto órgão público a serviço da sociedade na sua totalidade. Ao mesmo tempo que esse tipo de pesquisa se inscreve, claramente, na preocupação da própria universidade de se abrir sobre as diversas comunidades que compõem o mosaico nacional e se integrar no seu ambiente social, cultural e político.

Ao nível acadêmico, não é preciso lembrar o interesse que uma Escola de Comunicação pode ter por um estudo que diz respeito à mídia comunitária, à inserção dos grupos minoritários na sociedade global, à análise de instâncias específicas de enunciação da identidade, de produção da subjetividade e de constituição do sentido. Do mesmo modo que a adequação de nossa proposta de uma linha teórica relativa ao conceito de “Comunicação, Cultura e Conflitos” ao Programa de Pós-Graduação em “Comunicação e Cultura” (do qual o autor é professor) parece totalmente justificada.

Em busca de novos paradigmas

Pelo caráter complexo e abrangente de nosso projeto, se faz necessária a adoção de um método igualmente aberto e inovador. A transdisciplinaridade nos parece mais de que uma opção- um caminho natural que atravessa todos os campos de conhecimento interessados em desvendar o comportamento social humano em ambientes transplantados, desterritorializados pelo curso da História moderna. Essa transdisciplinaridade, todavia, deve tomar como marco reflexivo e perspectivo o paradigma comunicacional enquanto vinculação social e humana. Já na sua superfície morfológica, nossa pesquisa deve ser pontuada pelo equilíbrio e dosagem certa entre a análise teórica e a investigação empírica.

Mapeamento Teórico: Assim, pretendemos realizar, primeiro, um amplo mapeamento teórico multidisciplinar das questões levantadas no projeto. Dentre outras regiões teóricas que acreditamos valerem a pena serem estudadas, destacamos:

O aspecto histórico relativo aos suportes, às instâncias e às estratégias historicamente usados pelas comunidades étnicas e confessionais minoritárias na enunciação da sua identidade e na disputa pelo sentido.

A natureza discursiva das organizações comunitárias e os tipos de discurso usados atualmente pelos movimentos nacionais e sua “adequação” à metanarrativa globalizante e transnacional, em oposição aos discursos ideológicos usados nos contextos políticos marcados pelo ideal do Estado-Nação. Através dos dispositivos de enunciação, procuraremos analisar o universo criado por esse tipo de mídia e identificar as vozes existentes nesse tipo de discurso. Também buscaremos analisar a construção argumentativa do discurso em questão, procurando identificar as estratégias usadas para a constituição do ideal comunitário e, eventualmente, desqualificar outros discursos concorrentes.

O fato comunicacional relativo à contextualização da problemática no âmbito das transformações tecnológicas e organizacionais atuais; uma leitura da teoria da Globalização enfocada no conceito de sociedade em rede.
– Um reexame aprofundado da literatura sociológica e antropológica relativa à questão da etnicidade no contexto moderno e global, à luz de nossa proposta teórica de “conflituosidade cultura” (”Comunicação, Cultura e Conflitos”).

Andaime Empírico: Por outro lado, através do estudo de casos e fatos concretos, objetivamos produzir uma reflexão experimental e viva que dialogue, questione interpele os pressupostos teóricos convencionais. Por isso, como já adiantamos, nos “Objetivos Específicos”, pretendemos levantar os grupos que mais se enquadram em nossa problemática e selecionar dentre eles os cuja organização é mais voltada para a comunicação e produção de discursos reflexivos. Portanto, temos que proceder às seguintes operações:

Identificar e classificar a mídia desses grupos em impressa (jornais, revistas, almanaques), eletrônica (áudio e visual em vários sistemas) e digital (Internet, boletim via e-mail, cd-rom). Constituir um acervo constantemente atualizado dessa mídia, preparando uma base material para nossa idéia de observatório.

Especificar os caracteres discursivos de cada suporte e linguagem usados, notadamente para diferenciar a mídia propriamente local dos meios de natureza mais transnacional ou global.

Tentar definir as funções dessa mídia e distinguir entre seus aspectos organizacionais, culturais, religiosos e políticos.

Reconhecer e explorar a temática geral da mídia do grupo, as questões abordadas com mais freqüência e o discurso desenvolvido em torno de fatos extraordinários, como por exemplo, o 11 de setembro, as próximas eleições no Brasil e eventos políticos ou culturais nas regiões de origem das comunidades em questão.

Naturalmente, este esboço metodológico nos serve como esquema de ação e não como estrutura definitiva que pode limitar nossa abordagem. Acreditamos que a boa metodologia é aquela que possibilite uma maior agilidade e, por isso mesmo, pode ser redefinida à medida que a pesquisa avance e desvende níveis de complexidade e regiões teóricas e empíricas até então insuspeitas.

Enfim, a nossa metodologia deve nos servir também de base reflexiva e exploratória a propósito de nosso projeto final de criação de um Observatório de Acompanhamento e Análise da Mídia Étnico-Confessional de curta data no Brasil. Portanto, seu princípio formal deve ser a possibilidade de sua aplicabilidade modular que sustente uma estrutura em ampliação, capaz de se projetar a médio e longo prazo e não preocupada apenas com sua funcionalidade imediata e auto-suficiente e auto-referente.

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Notas

0 “(…) olhando-se à volta, começou-se a perceber que a etnicidade vigorava nos quatro cantos do mundo, e de que era a hidra do século XX. Em Nova Iorque, através do aparente cadinho de raças, grande parte das atividades de um cidadão comum processavam-se dentro de suas comunidades étnicas (…) inclusive as pensadas como mais racionais: o credito e o comercio utilizavam amplamente esses canais. A Máfia seria apenas a mais aparente dessas grandes empresas construídas sobre a etnicidade” (Cunha, Manuela Carneiro. 1979: 35)

1 Velho, Gilberto, 1987.

2 “Reduzido a um estágio de virtual impotência como indivíduo, o habitante urbano esforça-se para fazer parte de grupos organizados de interesses semelhantes para obter seus fins” (Wirth, Louis. 1967: 119).

3 “Paris, Nova Iorque ou Londres (…) são constituídas por uma constelação de entidades regionais ou étnicas onde são vividos, no dia-a-dia, práticas e costumes característicos que parecem anacrônicos para os modos de vida unificados e banalizados de uma civilização mundial dominante” (Maffesoli, Michel. 1984: 53).

4 “O outro aspecto (…) é a tendência de um grupo a explicitar a sua particularidade, aquilo que o distingue de outras formações culturais. Neste caso, identidade cultural diz respeito à totalidade dos campos identitários (psicológicos, lógicos, políticos) e à cultura como singularização do grupo, o que leva ao conceito de nação. (Sodré, Muniz. 1999: 47)

5 “Deus! quem odiar..?” (Naipaul, V. S. 1973)

6 “O que os recém-chegados entenderam, contudo, foi que o discurso aparentemente estático da elite era, na verdade, ambíguo (…) esses imigrantes tanto manipularam quanto modificaram o sistema, tornando-se, rapidamente, parte integrante da nação brasileira moderna, à medida que eles desafiavam as idéias de como essa nação deveria ser imaginada e construída” (Lesser, Jeffrey. 2001: 19)

7 “O sentimento de serem diferentes e, mesmo assim, semelhantes era particularmente visível entre os não-europeus, que tinham mais a ganhar abraçando tanto uma nacionalidade brasileira uniforme, tal como imaginada, quanto suas novas etnias pós-migratórias. Essas identidades eram múltiplas e muitas vezes contraditórias, e os símbolos disponíveis para serem usados e re-trabalhados estavam em constante fluxo (…) Outros, contudo, recusaram-se a se categorizar nesses termos. Esses imigrantes (e seus descendentes) insistiram que novas categorias hifenizadas devem ser criadas sob a rubrica de brasileiros” [grifo nosso] (ibidem nota 6: 20)

8 “As diferentes classes e frações de classe estão envolvidos numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses” (Bourdieu, Pierre. 1982: 11)

9 “… a third generation Brazilian of Japanese descent remains “Japanese”, and not Japanese-Brazilian, while a fourth generation Brazilian of Lebanese descent may be called a “turco”, an “arabe” or even a “sírio”. Over the course of the twentieth century, being a Brazilian citizen has never ended the condition of foreignness” (Lesser, J. 2000)